Resumo tático do Brasileirão 2016

Chegou ao fim o Campeonato Brasileiro 2016. Momento de olhar para trás, refletir sobre o que deu certo e o que errado. Passando a limpo as ideias que podem seguir no próximo ano, ou serem aprimoradas, como entender o que não deve ser mantido em busca de um nova temporada melhor e mais exitosa. 

Campeão nacional depois de 22 anos, o Palmeiras sofreu uma grande pressão da crítica esportiva, criando até um senso maior de análise em alguns e um debate necessário sobre a qualidade do futebol praticado por aqui. Compreensível, porque não seria fácil suceder o Corinthians de Tite, melhor campeão brasileiro dos pontos corridos, rico em conceitos e ideias de jogo atuais. 

Ainda assim, o Palmeiras de Cuca não andou na contra mão do dito futebol moderno. Só tinha o estilo dele, bem particular. Sem a bola, marcação encaixada e muito intensa para roubar rápido e acionar a qualidade dos homens de frente. Com ela, rotação, velocidade e o poder de fogo de Gabriel Jesus, craque da competição para muitos. 

Os laterais arremessados na área e os espaços cedidos pelo estilo de marcação foram duramente condenados, como a versatilidade no trato do elenco foi elogiada. Tanto que os pilares do time foram Tchê Tchê e Moisés, meias modernos e inteligentes, que jogam com bola no pé e cabeça erguida. Nada do brucutu que desarma e toca de lado.

Faltou um concorrente próximo, como aconteceu com Cruzeiro e Corinthians nos últimos anos, mas o time alviverde fez por merecer a conquista marcada por tamanha solidez, tanto nos números, quanto nas atuações. Melhor ataque, melhor defesa, o time que menos perdeu e o que mais venceu. 

Marca do Palmeiras no Brasileiro, a marcação por encaixes individuais – Reprodução: Premiere.

Longe de ter o elenco inchado de grandes jogadores, contando com perdas para seleção olímpica e até negociações, o vice campeão Santos trouxe o melhor e mais longínquo trabalho da Série-A. Com o melhor técnico do Brasileirão, a equipe comandada por Dorival Junior mostrou em campo conceitos semelhantes ao que se vê nos grandes centros do futebol mundial. Nível de concentração e intensidade alto, variações e versatilidade de suas peças, futebol apoiado onde todos jogam e fazem jogar, defendem e atacam. Desta vez, sem grande destaque individual, mas com um grande conjunto.

Santos compactando seu 4-2-3-1 em duas linhas de marcação – Reprodução: Premiere

O terceiro colocado Flamengo veio na mesma linha a partir da chegada do promissor Zé Ricardo. Linhas próximas para defender, ataque em bloco com opções de jogo, transições organizadas e volume ofensivo. Diego para desequilibrar, faro artilheiro de Guerrero, organização de Willian Arão. Naturalmente oscilou, pela juventude de seu técnico, por ser um time itinerante, por sentir a pressão em busca do título. Mas ficam as boas perspectivas para 2017.

Flamengo compactando seu 4-2-3-1 em duas linhas de marcação, preenchendo bem o espaço. – Reprodução: Premiere.

Na contra mão de seus concorrentes pelo título, o Atlético/MG do melhor e mais caro elenco do Brasil sofreu nas mãos de Marcelo Oliveira. Sem ideias coletivas, se sustentou na qualidade de Robinho, Fred, Pratto e Cazares. Time de muitos chutões, linhas distantes, marcação espaçada… Zero organização para potencializar o talento. Sem deixar nenhuma dúvida: se tivesse um trabalho mais equilibrado, brigaria até o fim pelo troféu nacional. 

Sem ajuda dos homens de lado, meio campo do Atlético/MG escancarado para transição adversária – Reprodução: Premiere
Caminho na direção contrária a dos elencos milionários, Atlético/PR e Botafogo conseguiram garantir suas vagas na Copa Libertadores através de muito trabalho. Paulo Autuori administrou bem o jovem elenco e força de um time que só perdeu um dos 19 jogos em seus domínios, o melhor mandante. 
 
Com futebol atual, o Botafogo de Jair Ventura teve a história mais incrível do Brasileirão. De provável rebaixado a melhor time do returno em vários momentos. Achou na Arena Botafogo um estádio para chamar de seu, que se uniu ao belo trabalho do técnico revelação para chegar ao torneio continental e manter um horizonte positivo. Tudo isso com futebol alinhado aos conceitos atuais e o desequilibrante Camilo, simbolo da campanha.
O losango de Jair Ventura, aproximando-se para marcar e também para jogar. – Reprodução: Premiere.
A frente de São Paulo, Cruzeiro, Fluminense e Internacional, que assim como Corinthians, abusaram de erros administrativos, táticos e técnicos, vem a Ponte Preta de Eduardo Baptista – futuro técnico do Palmeiras. Comum para muitos que veem o futebol como uma coisa simples. Mas de admirável coordenação defensiva, forte jogo reativo e muitos conceitos modernos em seu plano de jogo. Trazendo para pratica, além da boa colocação, não perdeu, por exemplo, para o campeoníssimo Palmeiras. 
Compactação da Ponte Preta em duas linhas de marcação – Foto: @dado_moura
Acostumados a brigar na parte de baixo, Sport, Coritiba e Vitória conseguiram se salvar, com impressionantes jornadas de Marinho e Diego Souza, além do bom comando de Carpegiani. Frágeis, América/MG, Figueirense e Santa Cruz, ainda que com um começo animador, “caíram” com muitas rodadas de antecedência, sem sinal de recuperação. Como o Internacional de quatro técnicos, nenhuma ideia e uma direção perdida. Pagará com a Série-B pela péssima administração.
 
Mais um ano se passou e outra vez o futebol jogado no Brasil foi debatido, tanto por aqui em análises que buscavam dissecar times, modelos e atuações, quanto nas TV’s, rádios e internet. E essa é a grande herança de mais um torneio nacional. Para 2017, o desejo é de constante evolução e mais um campeonato interessante de se assistir, torcer e analisar. 
 
Que venha o Brasileirão 2017!
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Raí Monteiro

Jornalista, editor e doente por futebol. Sempre aberto a um bom debate e um copo de cerveja.

3 comentários em “Resumo tático do Brasileirão 2016

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