A transição ofensiva do Liverpool e o erro capital de Wenger

O trabalho de Jurgen Klopp a frente do Liverpool é um dos mais bem feitos do continente europeu. Os reds tem um modelo de jogo muito bem definido, que a partir da bola trabalha alargando o campo, triangulando por dentro para explorar as entrelinhas do adversário ou o fundo com seus laterais superativos no ataque. As soluções ofensivas vem do jogo apoiado, com muita paciência na troca de passes sem perder a intensidade, e em especial uma transição ofensiva de alta velocidade.

Foi assim no primeiro gol da partida contra o Arsenal. Posse no chão e alta velocidade após o lançamento de Mignolet, para chegar a meta de Cech. Poucos segundos do domínio, a condução até o passe de Mané que atravessou a área e encontrou Roberto Firmino.

Transição ofensiva no primeiro gol – Reprodução: BBC

Tento que pegou a defesa dos visitantes de surpresa, mesmo que não fosse a partir de um contra-ataque ou uma jogada trabalha. Algo que de fato não poderia acontecer depois da estratégia pensada por Wenger. O longevo comandante sacou Alexis Sanchez, que havia participado de 25 (17 gols e 8 assistências) dos 54 gols do Arsenal na Premier League, declaradamente o melhor jogador da equipe, para apostar em Welbeck. A justificativa foi a busca por um jogo mais físico contra o veloz Liverpool. Fatal.

 
Porque não funcionou sem a bola, mas também não surtiu efeito com ela. Aliás, retomar a bola foi a reação quase que automática após o gol de Firmino. O Arsenal reteve a posse e tentou jogar, mas se viu impedido pela intensa marcação dos comandados de Klopp e também pela inercia em seus movimentos. Um time muito distante, sem possibilidade de triangulações para avançar no campo. Iwobi saindo da trinca com Coquelin e Xhaka tentou algo, mas sem o apoio de Welbeck e Chamberlain perdia sempre a bola.

Panorama do primeiro tempo – Reprodução: Tactical Pad
A transição ofensiva voltou a dar as caras para mostrar os movimentos de ataque do Liverpool. Enquanto Milner e Clyne alargavam o campo, Coutinho trabalhava entre o lado e o centro, na diagonal. Quando segurou o posicionamento e a marcação, Wijnaldum explorou, serviu Firmino que encontrou Mané livre do lado aposto para retribuir a assistência. Dois a zero com paciência na troca de passe para procurar o espaço, mas com agressividade para entender o momento de infiltrar. 

Construção do segundo gol – Reprodução: BBC
Na volta do intervalo, a entrada de Alexis Sanchez trouxe impeto ofensivo e anímico ao time de Londres. Remodelado em um 4-4-2 com o chileno aberto junto a Iwobi e Welbeck no comando com Giroud. Enfim o time teve agressividade. Ponteiros armando, laterais ultrapassando e um volume que resultou no gol de Welbeck após passe do fundamental Alexis Sanchez. Um recado a Arsene Wenger. 

O Arsenal do segundo tempo – Reprodução: BBC.

Com mais tempo de bola por alguns minutos e mais campo para jogar, os gunners viveram seus melhores momentos no jogo. Diferente da inerte posse que teve após o primeiro gol do Liverpool ainda na etapa inicial, conseguiu combinar a pelota nos pés com as chances de gol. A melhor delas com Giroud, que parou em Mignolet e no travessão em seguida.

Klopp foi ajeitando o time aos poucos e percebeu que era o momento de tirar a velocidade do jogo. Reter a posse, desacelerar as transições e defender de forma compacta se tornava a estratégia de momento do Liverpool. Conhecedor de seus momentos de oscilação na temporada e muitas vezes dentro de um mesmo jogo. Um time mais junto para encarrar o Arsenal reoxigenado com Walcott e Lucas Perez nos lugares com Welbeck e Giroud, agora num 4-2-3-1 com Iwobi de volta ao centro do campo. 
 
Mais do que tempo e impeto para buscar o empate, o que o time até teve, faltou uma estrategia mais bem pensada por Wenger. Um primeiro tempo pesado, sem mobilidade e com muita desatenção defensiva, contrastou com um Liverpool que soube viver cada momento do jogo e, ao fim, sacramentar o triunfo no contra-ataque de muita inteligência de Lallana e Mané, que terminou no gol do sempre presente Wijnaldum. Outra transição ultra veloz.
 

Marca da vitória do Liverpool no embate de gigantes contra o Arsenal que pede mais. Os Reds terminaram o jogo com 18 finalizações a sete, tendo sete a três em acertos. Com os 53% de posse de bola, 455 passes certos e o empate em 16 a 16 nos desarmes. 

Se o título está bem improvável, a caça pela acirrada vaga na Champions League é bem possível. Algo mais distante do Arsenal, que ficou em situação complicada em mais uma tarde mal planejada por seu técnico. A frase pode parecer velha ou até oportuna, mas ambos precisam de novos ares.

Panorama do segundo tempo em Anfield – Reprodução: Tactical Pad.
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Raí Monteiro

Jornalista, editor e doente por futebol. Sempre aberto a um bom debate e um copo de cerveja.

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