A coragem catalã e a covardia parisiense na tarde em que futebol reafirmou seu tamanho

Coragem é a grande palavra da classificação do Barcelona contra o PSG no Camp Nou, em uma tarde emocionante, que mostrou a força do imponderável no futebol. Coragem de se abrir em busca do resultado, coragem para acreditar quando tudo parecia possível e a vaga que se aproximou em um determinado momento, ficar distante. Coragem para escrever um dos maiores capítulos da história desse esporte apaixonante, que reafirmou seu tamanho na Catalunha, berço do melhor jeito de se praticar futebol na última década.

Coragem de Luís Enrique, que há algumas rodadas na Espanha tem testado um 3-4-3, tentando diminuir a evidente dependência do genial trio de ataque. Nele, Neymar virou “ala”, assim como Rafinha, que ganhou a vaga de Sergi Roberto, Messi se tornou um homem mais ao centro depois de duas temporadas como um ponta legítimo e Umtiti apareceu num trio de zaga no lugar do muito importante ofensivamente Jordi Alba. Algumas escolhas que até parecem loucura em um primeiro plano, que mas que eram importantes para empurrar os franceses para trás.

Os primeiros minutos foram como o esperado: linhas avançadas, movimentação para gerir a posse e infiltrar, com muita pressão nos poucos momentos de bola perdida. Domínio total do campo ofensivo. Porque o PSG de Unai Emery compactou como deveria, mas diferente do previsto, esperou o Barça em seu campo. Num 4-1-4-1 que teve Lucas pela direita na vaga de Di María e Thiago Silva de volta a defesa no lugar do ótimo Kimpembe. Uma estratégia que poucas vezes funcionou em grandes noites de Champions. Porque o combate entre gigantes é quase sempre a melhor defesa.

Provavelmente, subir as linhas e tentar um duelo franco nos primeiros minutos, pressionando alto, dividindo posse e diminuindo o ímpeto dos desesperados catalães, fosse mais correto, como era esperado.

Os parisienses ficaram atrás e encurralados desde os primeiros segundos, deixando claro que gol inaugural era questão de tempo… E ele veio em muito pouco. Antes mesmo do segundo minuto de partida, Luis Suárez aproveitou a hesitação de Kevin Trapp e da defesa confusa e tensa para abrir o marcador. O susto durou por mais 15 ou 20 minutos, até o PSG conseguir ganhar campo com algumas bolas rifadas que encontravam Cavani e reter, mesmo que minimamente, a posse. Porque de trás, a transição com Verratti e Matuidi não existia e a saída com Rabiot era engolida pela superioridade numérica do Barça com quatro por dentro, saindo com Pique e contando com a projeção de Busquets. 

Reprodução: TV Globo.

Aos poucos o ímpeto catalão diminuiu de forma até que natural, até Kurzawa completar outra lambança do setor defensivo e mandar o Barça para o intervalo com a metade da missão cumprida e um plus gigantesco do ponto de vista anímico e mental.

O Paris seguia sem existir no jogo, mal planejado e executado, dissolvido emocionalmente se tornou um time de uma postura covarde. Retraído como quem esperava pela sorte do relógio acelerar e o fim do jogo chegar ou uma possível imprecisão de um Barcelona faminto, que não precisou se desesperar.

Em um dos únicos apoios de Meunier, a bola na trave de Cavani mostrou que o jogo poderia ser outro com uma postura mais arrojada e que os parisienses eram capazes de algo mais interessante na casa catalã. Veio o gol de Messi no discutível pênalti sobre Neymar. E a um gol do objetivo, o Barça se tornou uma geladeira. Tinha tempo, então se acalmou. Nada de aleatoriedade. Bola no pé e paciência para girar em busca da melhor opção de infiltração. Emery tentou mexer: com Di Maria na vaga de Lucas, os franceses cresceram e os espaços enfim foram aproveitados. Como no gol de Cavani, livre na grande área. Há 28 minutos do fim, os três gols de vantagem eram quase que garantia de classificação.

Com linhas baixas e compactas, o PSG ficou retraído por 80% da partida. Reprodução: TV Globo.

O time de Luís Enrique sentiu o golpe. O tempo havia ficado menor e o caminho mais longo. Arda Turan e Sergi Roberto apareceram nos lugares de Iniesta e Rafinha, já sem brilho no jogo. André Gomes entrou por Rakitic em busca de oxigênio ofensivo. Depois de alguns minutos sem qualquer oportunidade clara e um controle que parecia ser do PSG, que pôde diminuiu mais e até empatar com Cavani e Di Maria, Neymar recortou as distâncias em cobrança de falta e tomou para si o protagonismo da partida em sua reta final e decisiva. 

Restavam dois minutos mais os cinco de acréscimos e o pênalti inexistente de Meunier em Suárez, deu a Neymar e ao Barcelona a chance do último suspiro. E como num roteiro perfeito, a bola que 90% dos atacantes chutaria ou cruzaria sem direção, o brasileiro colocou nos pés de Sergi Roberto. Como Jordan, Federer, Manning ou Messi… Um arco perfeito para a flecha da classificação. O elemento surpresa do abafa catalão. O sempre improvável herói, de uma das maiores reviravoltas da história desse esporte. Que manteve êxtase e estado de choque aos que acompanhavam o feito pelas horas seguintes. Incredulidade máxima.

O Paris pode sim reclamar de um pênalti duvidoso e outro inexistente, mas jamais poderá esquecer da sua atuação covarde. Um time completamente retraído e assustado com a grandeza do que defendia. Traçou uma estratégia mal planejada e executada. Não resistiu ao coração que pulsou mais do que o talento e a coragem de um Barça que ajudou a reafirmar o tamanho do futebol.

Esportes são os outros.

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Raí Monteiro

Jornalista, editor e doente por futebol. Sempre aberto a um bom debate e um copo de cerveja.

3 comentários em “A coragem catalã e a covardia parisiense na tarde em que futebol reafirmou seu tamanho

  • 12 de março de 2017 em 16:35
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    Tendo em vista 2 pênaltis inexistentes, faltas forçadas, árbitro inexperiente e influência dos dirigentes da UEFA, acho um grande erro considerar esse jogo como "grande" ou "milagre". A UEFA é pró-Barcelona e isso se evidencia quando lembramos de 2008-09, nas semi finais contra o Chelsea, ou em 2010-11, nas semi finais contra o Real Madrid. Há evidências o bastante para dizermos que em qualquer situação adversa, a UEFA sempre estará lá para ajudar o Barcelona. Aliás, por onde anda Sandro Rossel em?!

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