Contra a forte e sólida Juve, o Barça sem jogo coletivo foi uma ruína. Outra vez

Há quase dois meses, o Barcelona foi completamente dominado em Paris. Os quatro a zero que para muitos era irreversível, escancarou a pior versão do time catalão nos últimos anos. Uma equipe extremamente apoiada na qualidade individual de seu trio ofensivo e sem qualquer ideia de futebol coletiva, ainda mais evidente com o declínio de seus pilares do meio campo. O milagre do Camp Nou na semana seguinte deu uma falsa impressão de que o velho Barça havia voltado. Os seis a um foram, também, fruto dessa qualidade individual e não de um jogo como time.

No Juventus Stadium, o fantasma que assombrou durante toda temporada voltou a dar as caras. Porque em grandes noites europeias não vai bastar apenas o talento de Neymar, Messi e Iniesta, ou os gols decisivos de Luis Suárez. Todos eles apagados no duelo de ida das quartas de final da Champions League. Faltou outra vez um plano para que o time jogasse como time e assim pudesse elevar e potencializar todos esses talentos.

O oposto da Juve. Porque Allegri planejou uma equipe para alternar pressão alta e tirar o passe de Piqué ou Mascherano, forçando a saída no frágil e lento Mathieu, com linhas compactas para negar espaços às ações do clube catalão. Ora com Mandzukic fechando uma linha de cinco atrás, com Dybala ou Híguain compondo o lado da segunda linha de marcação. Ora Daniel Alves subindo para antecipar Neymar e diminuir o raio de ação do brasileiro. Tudo bem coordenado e coberto, com alta intensidade e concentração. Dando aos donos da casa, o controle do jogo com 33% de posse de bola no primeiro tempo.

Juve compacta, com Mandzukic fechando uma linha de cinco atrás – Reprodução: TV Globo.

E velocidade pelos flancos! Cuadrado dobrando com Dybala nas costas de Mathieu, como no primeiro gol, todo construído pelo lado direito do ataque bianconerri. Ou com Mandzukic chegando livre pelo flanco esquerdo e cruzando para o argentino, outra vez livre, marcar o segundo dele. Em ambos os lances, um Mascherano e uma linha de defesa perdidos e mal posicionados.

Com seus 66% de posse de bola, Barça se instalava no campo de ataque com toques lentos e inócuos. Não conseguia acelerar ou vencer o muro. Só uma bola de Messi furando as linhas para Iniesta e a defesa de Buffon. Um lampejo. Muito pouco frente à absurda atuação da Juve. 

Pressão alta da Juve – Reprodução: TV Globo

Mesmo sem o pior Busquets dos últimos anos, o time de Luis Enrique sofreu para sair de trás. Mascherano, além de vendido na marcação, era impreciso na primeira transição. A frente, Neymar afunilava sem opção de amplitude pela esquerda – que podia ser Alba -, do centro Messi e Iniesta encaixotados. Na referência Suárez preso entre os ótimos Bonucci e Chiellini.

Outro trabalho destacável foi o de Pjanic e Khedira, fisicamente perfeitos a frente da área, coordenando a subida de linhas e a compactação das mesmas. Marcando e jogando, como manda o manual. Assim como os laterais brasileiros. Daniel Alves soberbo na marcação a Neymar, Alex Sandro cuidando de Messi e Sergi com auxilio de Mandzukic. 

Marcação da Juve – Reprodução: TV Globo

André Gomes na vaga de Mathieu devolveu Mascherano a defesa com 45 minutos de atraso. O volume ofensivo do Barça cresceu, assim como as possibilidades. Porém, nunca deixavam a sensação de que um gol ou até o empate estariam próximos. Chegou o tento de Chiellini na eficiente bola alta.

Restou o controle da Juve, sem se expor tanto a partir do terceiro tento, mas com a mesma intensidade para marcar desde o primeiro minuto. Linhas mais baixas para dosar energia. 34% de posse de bola, 40 bolas recuperadas e 10 quilômetros a mais percorridos, ou corridos. 15 a 14 para o Barça em finalizações, com oito a três para os bianconerri em acertos.

Atuação primorosa da Juventus em Turim! Fibra, alta intensidade, concentração… uma estratégia muito bem traçada e executada. Vecchia senhora forte e sólida. Não é possível desacreditar de um novo milagre do Barça, por mais improvável que ele seja, outra vez, dentro do contexto. A sensação que fica, novamente, é de que a ruína coletiva catalã não conseguirá se reerguer desta vez.
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Raí Monteiro

Jornalista, editor e doente por futebol. Sempre aberto a um bom debate e um copo de cerveja.

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