Concentração, intensidade e adaptação: palavras chave no primeiro título do Galo de Roger Machado

Atlético e Cruzeiro serão protagonistas no futebol brasileiro em 2017. Algo até fácil de “prever”, tendo em vista os elencos muito qualificados e cheio de opções que ambos tem, além dos ótimos treinadores e trabalhos sendo feitos. 

Contudo, sempre será natural esperar equilíbrio quando os dois maiores times de Minas Gerais se encontrarem. Porém, a prévia do grande duelo final mostrava um histórico recente de oito jogos sem vitórias do Galo e dois triunfos do Cruzeiro em três encontros na atual temporada. Um componente psicológico e tanto em um clássico decisivo. O primeiro de Roger Machado, buscando o primeiro troféu da carreira e a primeira vitória em clássico.

Por isso a ideia do triunfo sobre o frágil Sport Boys da Bolívia na quarta-feira de Libertadores, que busca mais equilíbrio e menos oscilações, foi mantida: Elias a direita de uma linha de quatro no meio campo, com Adilson ao lado de Rafael Carioca e Otero do outro lado, como homem mais incisivo da linha. A frente deles e atrás de Fred, Robinho para articular entre as linhas do Cruzeiro. 

Como fez e foi fatal no primeiro gol do Galo, logo no início do jogo. O camisa sete recebeu de Fred, que abriu a frente da área, na referência e balançou a rede de Rafael. O que deixou o jogo em um panorama ainda mais favorável ao time de Roger, obrigando o Cruzeiro a se soltar, pois precisava virar em busca do título. 

Atlético/MG organizado em duas linhas de quatro com Elias aberto – Reprodução: Premiere.

Boa vantagem, mas nada de relaxamento. O gol antes dos quinze minutos serviu para o Atlético colocar em prática seu plano de jogo: linhas sempre compactas, intensidade na marcação e pressão no setor da bola, para roubar e acelerar na saída com Robinho ou Otero. Reatividade e controle. Entregando a bola para o time de Mano, mas executando o plano com tamanha concentração, que não permitiu nenhum chute ao gol de Victor em um primeiro tempo com 65% de posse para a Raposa. 

Porque mesmo com a progressão de Henrique saindo da linha com Hudson, um dos poucos destaques celeste na primeira etapa, Arrascaeta ficou sozinho na armação. Rafael Sóbis e Rafinha abertos faziam muitas diagonais, mas poucas associações por dentro com o uruguaio, solitário também pela presença de Thiago Neves na referência outra vez, algo inexplicável e que não se justificou em um jogo e meio da decisão.

Panorama tático do primeiro tempo em BH – Reprodução: Tactical Pad.

Pela ineficiente, mas sobretudo a necessidade do resultado, Ábila voltou na vaga de Hudson para a etapa final e o Cruzeiro precisou apenas seis minutos para empatar. Sem ser superior ou apelar para o jogo aleatório, conseguiu abrir a defesa com um recurso pouco usado no primeiro tempo: a virada de jogo, que achou Mayke livre para cruzar para o argentino.

O gol pilhou o Cruzeiro e desestabilizou o Atlético. O time de Roger começou a dar espaços e oferecer ocasiões aos comandados de Mano, que foram empilhando chances que aquela altura poderiam dar o título a Raposa.

Dando alguns espaços, outro problema do Atlético estava na retomada e saída em contra-ataque, perdida com o cansaço de peças com Otero e Robinho. Por isso as entradas de Cazares e Maicosuel, que trouxeram outra vez o poder ofensivo ao Galo. Como na rápida transição com passe do equatoriano para Elias, que infiltrou como ponta pela direita e finalizou cruzado para marcar.

Gol que trouxe de volta o controle do jogo para o Atlético, bem organizado com suas duas linhas de marcação bem próximas frente a um Cruzeiro já bem mais aleatório com Alisson na vaga de Sóbis, Arrascaeta e Thiago Neves encostando em Ábila, esvaziando o meio a espera de um cruzamento ou lampejo. Foram 21 erros em 26 tentativas.

Atlético marcando com seus dez homens no campo defensivo e Cruzeiro afunilando o jogo sem poder de criação ou associações. – Reprodução: Premiere.

O Galo subiu sua posse para 43%, conseguindo reter e até trocar alguns passes, e finalizou quatro vezes no alvo com dois gols contra apenas três e um gol em 12 que tentou o Cruzeiro. Efetividade. 

O primeiro título da Era Roger Machado no Atlético veio com muita concentração e intensidade na execução do modelo de jogo. Mais reativo e adaptável em 180 minutos de decisão, foi forte defensivamente, exatamente a antítese do time que foi tão vulnerável em 2016. Poder do trabalho de um jovem e muito competente técnico, enfim campeão para acabar com a desconfiança de alguns.

Pressão do galo ao portador da bola, intensidade e superioridade numérica para marcar e não deixar o Cruzeiro jogar. Reprodução: Premiere.
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Raí Monteiro

Jornalista, editor e doente por futebol. Sempre aberto a um bom debate e um copo de cerveja.

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