Separar “os Renatos” é fundamental para entender porque o Grêmio é o melhor time do Brasil em 2017

Renato Portaluppi é um daqueles personagens únicos no futebol brasileiro. Irreverente e polêmico, provoca reserva em alguns dos que entendem futebol de uma forma menos simplista, baseada na análise e no estudo. Declarações como “enquanto eles estudam, eu vou para a praia”, causam diversas reações e servem para mostrar um dos lados do técnico gremista.

Lado que deve ser colocado fora da balança para pesar e analisar apenas o ótimo trabalho que faz do tricolor gaúcho o melhor time do futebol brasileiro em 2017. O comandante, embora diga o contrário, talvez até de proposito para alimentar as polêmicas vazias, também é sinônimo de modernidade no jeito trabalhar e seu time mostra e mostrou isso em cada uma das belas atuações que teve até aqui. 

É bem verdade que Renato pegou um time padronizado quando assumiu no meio da última temporada. Uma injeção de ânimo, natural quando um novo comandante, com o plus de ídolo, chega, e um reforço ao sistema defensivo foram os mais importantes trunfos que, somados ao que o time já tinha de muito bom, levou o Grêmio ao título da Copa do Brasil, conquista que teve grande participação de Roger Machado, como você leu aqui.

Para a atual temporada, o desafio de Renato era dar sequência ao bom desempenho, deixando a equipe ainda mais alinhada ao que pensava. Os reforços não foram os mais badalados. Jogadores esquecidos como Léo Moura e Bruno Cortez, além das apostas em Barrios, de má temporada no Palmeiras, e Michel, volante de boa Série-B pelo campeão Atlético/GO. A manutenção da base, apenas com a baixa de Walace, também foi importante no sentido da sequência do trabalho.

Grêmio no 4-2-3-1 contra o Guarani do Paraguai – Reprodução: SporTV

O que não impediu o Grêmio de oscilar. Sete empates e duas derrotas em 15 jogos de Gaúchão, a prioridade da diretoria, que fez até com que Renato poupasse o time titular na Libertadores! Queda na semifinal contra o surpreendente campeão Novo Hamburgo. Na competição continental, bom futebol em uma primeira fase tranquila. Grupo pouco desafiador e missão cumprida: passar sem sufoco, jogando bem e vencendo de forma consistente.

O elenco, que com certeza não está no nível de Flamengo, Palmeiras e Atlético/MG, reagiu bem as lesões. Edílson, Maicon, Douglas e Bolaños… Jogadores importantes na exitosa temporada de 2016. Cresceram Michel e Barrios – artilheiro do time na temporada com 12 gols em 19 jogos. Surgiu da base Arthur, segundo volante exatamente moderno, que participa de todas as fases do jogo com a mesma eficácia.

No imutável 4-2-3-1, Ramiro segue sendo peça fundamental a direita do meio campo, embora tenha atuado na primeira dupla em alguns jogos. Auxilia Léo Moura sem bola e Luan, que virou ponta de lança ou “10”, com a posse nas entrelinhas. Útil em todas as fases como manda o “manual”. Assim como Pedro Rocha, ponteiro mais incisivo do lado oposto. Quando perde a posse, o tricolor mescla pressão ao portador da bola adversário e recuo das linhas para se compactar. Sempre trabalhando com encaixes individuais, o famoso cada um pega o seu – não tão longos como os do Palmeiras por exemplo. Sempre com intensidade para executar o modelo. (vídeo abaixo)

Na transição ofensiva, Michel fica responsável pelo primeiro passe, com Arthur trabalhando as progressões de área a área, como pede o futebol atual. Ele é quem faz o time andar de trás para frente, sem queimar etapas. No terço final, movimentação e muitas associações com Pedro Rocha, Ramiro e Luan, esse com a missão de romper as linhas e trabalhar nos espaços que surgem do adversário. Possibilidades de triangulações e jogo apoiado por todo campo. Luan, aliás, tem jogado muito bem há algum tempo e não deve ficar por muito mais tempo no país. Chama a atenção do Liverpool.

A solidez que Pedro Geromel e Kannemann trazem ao lado de Marcelo Grohe para a defesa, também fundamental para que o time tenha média de menos de um gol sofrido por partida no ano, 25 em 29 jogos. Ainda não é ideal, claro. Mas o trabalho em curso é bem promissor. Nos últimos seis jogos importantes, o time não foi vazado em quatro (Fluminense, Zamora, Botafogo e Atlético/PR). Como na eliminatória contra o tricolor carioca por exemplo, com duas atuações solidas e consistentes. Cinco a um no placar agregado.

No Brasileirão, vitórias sem sofrer gols contra Botafogo e Atlético/PR, essa na quase imbatível Arena da Baixada. Ambas contra times da Libertadores. A derrota por quatro a três para o Sport, com time misto, mostra que nem tudo está perfeito e inalterável. Mas pode ser considerado uma natural oscilação neste início avassalador do ponto de vista de desempenho.

Por tudo que vem jogando, o Grêmio pode sim ser considerado o melhor time do futebol brasileiro em 2017. Oscilou e teve problemas como todos, mas foi consistente, solido e efetivo como poucos. O bom futebol jogado no sexto mês do ano, metade da temporada, não garante nada. Mas pode ser um bom indicativo.

Contramão de tudo que diz o personagem Renato Portaluppi, que tem de ser separado do técnico que trabalha de forma moderna para que todos possam entender porque o Grêmio é o melhor time do país na atualidade. 

 

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Raí Monteiro

Jornalista, editor e doente por futebol. Sempre aberto a um bom debate e um copo de cerveja.

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