Juventus x Real Madrid – o ato final do futebol mutante

Juventus e Real Madrid chegam para a final da Champions League no auge físico, tático, técnico e mental. Quatro momentos de um time, dentro de um jogo, em que excelência é fundamental para alcançar êxitos como chegar a decisão do maior torneio de clubes do mundo, além de dominar o futebol do país, como ocorreu com ambos. O triunfo final depende do máximo em tudo isso e algo a mais. Como conseguiu o time espanhol em duas das últimas três edições e como não o conjunto italiano há dois anos em Berlim.

Por falar na decisão de 2015 contra o Barça, o meio-campo formado por Pirlo, Vidal, Machisio e Pogba na ocasião, era, sem dúvida, superior do ponto de visto técnico ao setor hoje formado por Pjanic, Khedira, Daniel Alves ou Cuadrado e Mandzukic. Mas para a final deste sábado, a Juve chega muito mais forte do ponto de vista coletivo. Tática e mentalmente, o time de Massimiliano Allegri está, sem qualquer interrogação, pronto para levantar a terceira orelhuda de sua história. Maturidade pode ser uma das palavras para definir.

Como o Madrid, que tem a base excepcional, de três finais em quatro anos, como grande trunfo para buscar a “duodécima”. Do time campeão em Lisboa em 2014 para o time que deve sair jogando neste sábado, apenas duas mudanças: Keylor Navas no gol e Casemiro no meio, que era reserva na ocasião.

Zizou tem uma dúvida para a decisão: Isco ou Bale? Com a certeza coletiva de que o meio campista espanhol não pode sob nenhuma desculpa ser reserva na final. Porque Isco entrou no time na parte final da temporada e foi fundamental nas decisões na Espanha e no continente. Peça chave no título da Liga das Estrelas, foi também indispensável nas semifinais contra o Atlético de Madrid. Partindo de um 4-3-1-2, o camisa 22 arma entre as linhas, dá suporte as transições sempre excelentes de Modric e Kroos, além do apoio ao ataque de Cristiano Ronaldo e Benzema.

Isco trabalhando entre as linhas do Atlético de Madrid. Fundamental na semifinal.

Isco é fundamental também no trabalho sem bola, porque Bale nunca foi dos mais combativos no plano defensivo e a entrada do meia deixou o time mais equilibrado com e sem bola. Quando o Real perde a bola, Isco retorna por um dos lados, de preferência o esquerdo, e vê Modric, na maioria das vezes, ou Kroos abrir do lado oposto para compactar um 4-4-2.

Mutações fundamentais na fluidez do jogo madridista. Exposta de forma que tangenciou a perfeição nas quartas de final contra o Bayern de Munique e na fase seguinte contra os colchoneros. Pressão com apoios claros e triangulações aproveitando a presença de Marcelo, Carvajal, Kroos e Modric no campo ofensivo. Jogo gerado com qualidade para que Cristiano Ronaldo ou Benzema possam definir, ou até mesmo Sergio Ramos com seu poder de decisão na bola área, a melhor da Europa na temporada.

Contra o Bayern, Isco voltando pelo lado para compactar duas linhas de marcação.

O que não evitou as oscilações do time treinado por Zidane, que resultou em atuações muito ruins do ponto de vista de desempenho na temporada. A defesa não foi nem de longe solida e acabou sofrendo 71 gols em 59 jogos no ciclo 2016/17. Apenas 13 vezes o Real Madrid saiu de campo sem ser vazado. Mas apoiou as debilidades defensivas na força de um ataque avassalador. 169 gols divididos em 59 partidas. E um recorde de 64 jogos seguidos balançando as redes do oponente. Ninguém fez mais na Europa em todos os tempos.

Contraste com a melhor defesa continente, que sofreu apenas 33 gols em 56 jogos na temporada. Média de 0,5 ou um a cada duas partidas. Na Champions, a Juve sofreu dois gols na fase de grupos e depois voltou a ser vazada apenas no “quarto tempo” da semifinal contra o Monaco, quando já vencia por quatro a zero no agregado. Relaxamento natural de um time já classificado.

Considerada por alguns a melhor defesa de todos os tempos, a primeira linha de Allegri é exatamente a única incerteza prévia a grande decisão. 4-2-3-1 com Cuadrado e mais agressividade no terço fnal, ou variação para o 3-4-2-1 com Barzagli na lateral direita e Daniel Alves mais avançado. A segunda opção é mais provável, até pelo que produziu em 180 minutos contra o Monaco e o tipo de jogo que terá pela frente.

Juve, com três zagueiros, marcando em duas linhas de quatro.

Assim como o Madrid, os italianos têm um conjunto mutante, que se adapta a cada momento do jogo de uma forma diferente, mas sem perder solidez, consistência e fluidez em seu jogo. A Juve pode defender com uma linha de seis, tendo apoios de Dani e Mandzukic pelos lados, marca do que o sacrifício em prol do coletivo pode fazer. Mas também pode atacar com sete, tendo a chegada dos homens de lado, com Pjanic Khedira e Dybala, de estupenda fase, se juntando a Gonzalo Higuain.

Pilares de um ataque exatamente eficiente e que levou a Juve a grande decisão com a chance da inédita tríplice coroa, conseguida recentemente por Barcelona (2014/15), Bayern de Munique (2012/13) e Internazionale (2009/10). 111 gols na temporada, 51 deles marcados pela dupla de argentinos que comanda o ataque bianconeri. Higuain de muito presença e potência na grande área. Dybala de um talento para atuar no terço final que é pouco visto por aí. Se converteu em um meio-campista, “10”, armador, atacante… Absolutamente completo.

Juve pressionando a saída de bola do Barcelona no Camp Nou.

Juventus e Real Madrid vão colocar a bola para rolar em Cardiff em iguais condições de sair campeão. Equilíbrio, 50% para cada lado… Tamanha igualdade previa não existe desde 2008, quando Manchester United e Chelsea se enfrentaram em Moscou. De lá para cá: Barcelona 2009, Inter 2010, Barcelona 2011, Bayern de Munique 2012 e 2013, Real Madrid 2014 e 2016, e Barcelona 2015 entraram em campo com uma ponta maior de favoritismo em relação a seu adversário, o que não garante absolutamente nada. Na decisão de Galês isso foi reduzido a zero.

Poucas horas para a final em Cardiff. O último ato do melhor futebol do mundo com dois times mutantes como protagonistas. Craques, conceitos, ideias… Futebol do mais alto nível. Expectativa de mais um jogo que ficará para a história de todos os pontos de vista.

Prováveis escalações e formações em Cardiff – Reprodução: Tactical Pad!
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Raí Monteiro

Jornalista, editor e doente por futebol. Sempre aberto a um bom debate e um copo de cerveja.

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