Portugal 2×2 México – As diferentes formas de jogar, ser consistente e efetivo

Juan Carlos Osorio e Fernando Santos tem formas diferentes de pensar futebol. O que, visto apenas por esse prisma, não faz um melhor do que o outro. Assim como Allegri vê o jogo de um jeito, Zidane de outro, Guardiola de outro e Carille ou Renato Gaúcho de um diferente. Por isso a escolha de um técnico tem que estar dentro de um projeto esportivo, conhecendo seus conceitos e as peças disponíveis para alcançar o maior êxito possível.

Por pensar assim o México foi buscar o comandante de trabalho promissor no São Paulo e ótimos anos anteriores no Atlético Nacional, tri campeão nacional e bi da copa colombiana, formando a base campeã continental no último ano. Depois do fracasso na Copa do Mundo de 2014, Paulo Bento teve seu trabalho interessante interrompido e a escolha pelo experiente Fernando Santos foi de encontro ao estilo que pudesse “domar” o vestiário com algumas estrelas do futebol continental… E claro, fazer um bom trabalho com muitos jovens que surgiam já em grandes clubes.

O México de Osorio está invicto nas eliminatórias para o Mundial da Rússia. São nove vitórias e três empates, com o passaporte quase carimbado. Boa campanha e desempenho que seguiram na Copa América do Centenário do último ano, até o choque com o Chile e a acachapante derrota por 7 a 0. Na contramão do esperado, a diretoria da federação preferiu manter o trabalho. Do outro lado, Fernando Santos levou Portugal a inédita e impensável conquista da Eurocopa e faz boa campanha no caminho até a Copa. Duas boas seleções…

Contexto que fazia do embate em Kazan, o mais esperado da primeira fase da competição. E o desenho não foi nada diferente do esperado e praticado. México com a bola, linhas sempre altas, mobilidade e intensidade para colocar em prática o jogo de posição. Se estabelecer no campo de ataque, fazer a bola rodar com apoios e a partir disso criar as chances. Algo complexo, que demanda de treino e aceitação. Mas já está fincado no elenco.

Fernando Santos manteve as linhas de sua seleção próximas e compactas, guardando a meta de Rui Patrício. Com Nani e Cristiano Ronaldo avançados, faltou velocidade para responder. Porque Quaresma era muito exigido na fase defensiva para ajudar na marcação de Layun, lateral/ala mexicano. André Gomes centralizava, mas não tinha a passagem de Raphael Guerreiro. João Moutinho ficava por vigiar Guardado, com William Carvalho pendente de Jonathan dos Santos. Portugal não conseguia andar em campo, incomodar o gol de Ochoa.

Sem pressão, a marcação de bloco médio deixava a saída de Moreno ou Herrera limpa por dentro. Sempre em passes verticais, buscando a opção entre as linhas de Portugal. O time de Osorio conseguia se associar por dentro, tinha Chicharito encostando em Jimenez, o centro avante, a partir da esquerda e Vela dando profundidade do outro lado. Até porque, no setor, Salcedo segurava um pouco mais para ajudar a dupla com os atacantes portugueses. Mas faltava efetividade ao domínio.

Panorama tático do primeiro tempo em Kazan – Reprodução: Tactical Pad

Durou até o gol bem anulado de André Gomes pelo importante sistema de vídeo. Até Portugal perceber que poderia controlar mais a frente e criar também suas oportunidades de gol. Como na boa jogada de Cristiano Ronaldo, convertida por Quaresma. O México tentou retomar o protagonismo. É bem verdade que não conseguiu ser dominante, mas chegou ao empate com o sempre presente Chicharito. Apenas uma das duas finalizações certas em sete tentativas no primeiro tempo de 56% de posse.

O comandante português leu bem o jogo. Primeiro colocou Adrien Silva na vaga de João Moutinho, já que o time não tinha saída por dentro. Depois Gelson Martins no lugar do nulo Nani. André Gomes foi jogar por dentro e o time ganhou velocidade pelos lados do campo.

Ao passo que o ritmo do jogo e o nível de intensidade caíram, as chances foram aparecendo. Quase que uma trocação franca. Os lusos com velocidade no terço final, os mexicanos com associações que davam mais certo e tinham também mais espaços. Osorio colocou Giovanni dos Santos na vaga de Vela e perdeu velocidade em busca de mais um pé que pudesse pensar e criar. Depois sacou Salcedo e colocou Araujo, justamente por perder profundidade pela direita na mudança anterior.

Portugal se estabelecendo no campo de ataque, México marcando próximos – o contrário foi bem mais visto durante o jogo.

A entrada do promissor André Silva trouxe Portugal a um panorama mais próximo do que parece o ideal. Velocidade e inteligência, combinado com Cristiano Ronaldo. Mais bem distribuído e nessa tônica, os portugueses passaram como jogam os mexicanos: se estabelecendo no campo de ataque, trocando passes, infiltrando… Parecia fatal.

Veio o gol do bom zagueiro Hector Moreno, já no minuto final. Justiça ao placar pelo que se jogou em Kazan na estreia de ambos na Copa das Confederações. O duelo mais interessante do torneio até aqui. Porque com formas diferentes de jogar e de seus técnico entenderem o jogo, portugueses e mexicanos foram consistentes e efetivos!

Dados estatísticos: FIFA.com

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Raí Monteiro

Jornalista, editor e doente por futebol. Sempre aberto a um bom debate e um copo de cerveja.

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