O título da Alemanha na Copa das Confederações é um prêmio ao trabalho de campo e a ousadia no planejamento

É claro que uma das oito finalizações certas do Chile em 21 tentativas durante a decisão da Copa das Confederações em São Petersburgo poderia ter vazado a meta de Ter Stegen e entrado. Ou Marcelo Díaz não ter hesitado na saída de bola, entregando a redonda a Werner e consequentemente ao gol de Stindl. Mudando o panorama e a história do jogo. Abafando a pressão do time de Pizzi, superior aquela altura do embate, onde o gol inaugural parecia uma mera questão de tempo. Porque, em tese, os bi-campeões da América tinham um conjunto mais pronto e experiente que o alemão… Mas o futebol tem histórias escritas e não pode ficar preso ao “se”.

E o título do time de Low nos traz muito mais reflexões do que podemos imaginar. Vamos trazer a realidade deles para a nossa: já parou para imaginar se Tite ou qualquer outro comandante em questão coloca um time alternativo para disputar a competição prévia ao mundial, outrora tão valorizada por aqui!? Hoje, com a Alemanha campeã é sucesso e modelo a ser seguido… Mas quais seriam as reações prévias em nosso país de pensamento conservador? É difícil imaginar que não as mais negativas possíveis. “Futebol brasileiro tem que ser levado a sério”, “não pode entrar em competição para treinar jogadores”.

Onde se pensa futebol fora do óbvio tudo tem um motivo, faz parte de um plano, está em um projeto esportivo. Low levou seus melhores para o Brasil em 2014 e foi campeão. Fez o mesmo dois anos depois, na França, e caiu para a anfitriã na semifinal da Eurocopa. Poderia convocar o que tem de melhor a competição de pouco valor técnico na Rússia e vencer com um pé nas costas, reforçando a imagem de favorita ao troféu em 2018. Mas preferiu descansar seus principais jogadores depois de uma exaustiva temporada na Europa e apostar no futuro. Cabe outra reflexão, em um país que trata tão mal a base: existe um melhor momento para lançar promessas do que em um campeonato que o mundo assistirá, mas que não vai ter o peso de uma Copa do Mundo ou uma Eurocopa? É certo que não!

Mas é claro que não passa só por juntar jovens promissores e esperar que algo mágico aconteça. Manter o plano de jogo da seleção principal é mais que necessário, até para adiantar a adaptação dessas peças ao estilo que tem que estar identificado com o futebol do país. O modelo não deve estar ligado apenas a um técnico, para que o ciclo seja longínquo e vencedor e as transições bem mais rápidas. O ideal é que venha desde a base e esteja “enraizado”. Jogando da mesma forma, a Alemanha venceu o europeu sub-21 no último fim de semana e chegou a final das Olimpíadas sem precisar de um goleiro, zagueiro ou craque acima da idade em 2015.

Pois é… E Low fez tudo isso! Deu sequência ao ciclo e guiado por Kimmich, Hector e Draxler, titulares na última Euro e peças quase garantidas no próximo mundial, viu sua seleção crescer com Ter Stegen, Rudiger, Goretzka, Werner e Stindl, jogadores desconhecidos até por aqueles que acompanham o futebol internacional. Mantendo o modelo de jogo de forma muito flexível! Ora comandando a posse e as ações com ocupações ofensivas, troca de passes e precisão nos fundamentos. Ora mais reativa, como foi nos jogos contra o Chile, maior desafio da competição, com compactação, transições rápidas e efetividade! Um time extremamente técnico, que não precisou ser brilhante. Consistente!

Ao fim, dentro do contexto, a Copa das Confederações vale pouco… É muito mais um teste estrutural do que técnico ou tático. Ganhar é sempre bom e ajuda a indicar caminhos e premiar bons trabalhos. O título da Alemanha chega como prêmio a ousadia no planejamento e ao fantástico trabalho de continuidade em campo. De olho no presente, mas fundamentalmente no futuro!

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Raí Monteiro

Jornalista, editor e doente por futebol. Sempre aberto a um bom debate e um copo de cerveja.

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