Em busca de um padrão, São Paulo iguala organização gremista na vontade

O São Paulo ainda busca um padrão. Se ainda existem algumas falhas em relação ao posicionamento, a marcação, uma mudança de postura para encaixar a marcação mais rapidamente, por outro lado a maneira com que enfrentamos uma equipe tão qualificada foi importante. Existem momentos que você tem que abrir mão dos números e jogar com vida, com o coração.

O trecho de Dorival na entrevista após o empate com o Grêmio no Morumbi ajuda a explicar o momento do São Paulo e o que foi o jogo contra o vice-líder da competição. Vontade é dos pilares de um time. Sem ela, não adianta grandes ideias de jogo ou até mesmo grandes jogadores. Assim como, obviamente e como reconheceu o comandante, vontade também não pode ser o todo e sim fazer parte da identidade de um time. Vontade, raça, transpiração… Essas foram as grandes virtudes do tricolor paulista no empate com o gaúcho. Talvez pelo lotado Morumbi, pulsante, que contagiava o time na luta contra o rebaixamento diante de um adversário e um panorama bem adverso. Virtude para “dar a volta” em um jogo muito difícil e com um panorama bem desfavorável, vontade para igualar a organização do time que joga o melhor futebol do Brasil em 2017.

E assim foi desde o início, com um 4-1-4-1 e sem Lucas Barrios. Maicon ganhou uma vaga, entre as linhas, e foi peça fundamental na circulação da bola ao lado de Michel e do ótimo Arthur. Tanto na saída, quanto na transição. Sempre limpa e apoiada. O meio campo que trabalha de maneira inteligente, potencializado pela velocidade de Pedro Rocha da esquerda para dentro e a mobilidade de Luan como nove móvel. Intensidade para marcar e controlar o jogo mesmo sem ter mais posse de bola em nenhum momento. Veloz e vertical na retomada, para ser agressivo e letal, como na bola lançada por Geromel para Pedro Rocha, que pegou a defesa de surpresa e abriu o placar.

Grêmio organizado no 4-1-4-1, com marcação individual no setor: Cortez caça Gomez até o fim. (Reprodução: Premiere)

Vale voltar a frase de Dorival no começo do texto. O São Paulo ainda carece de um padrão, embora tenha uma ideia de jogo que começa a ser implantada. Em alguns momentos já é possível ver o time mais compacto, marcando mais junto e próximo. Mas também existem os momentos de desatenção, lentidão, falta de recomposição. Como no gol inaugural. A pressão ainda é descoordenada e permite, como no chute de Maicon pra ótima defesa de Renan na outra grande chance do Grêmio. É um processo de correção e não acontece da noite para o dia. São duas semanas de trabalho e quatro jogos,  com pressão por resultados, mudanças… tudo conta!

E os 45 minutos iniciais passaram rápido para o São Paulo. Porque o time não se achou, não finalizou, não criou. Distante na armação, sem possibilidade de triangulação e lento na retomada, o que acaba isolando Pratto. Para tentar jogar Cícero e Lucas Fernandes nas vagas de Jucilei e Jonathan Gomez, outra vez escalado como ponta construtor que não é. Sempre foi homem de chegada no Santa Fé. Pode até render aberto, mas não será imediatamente. Mudanças e linhas mais avançadas, mas com mesma dificuldade em propor, furar o bloqueio, criar chances. Cueva veio para o lado, mas seguiu isolado. O passe de Cícero não foi efetivo, nem quebrou linhas. Lucas Fernandes entrou bem, outra vez móvel e buscando apoios, deu velocidade. Foi premiado com o gol na única finalização certa do São Paulo no jogo. Jogada de Edimar, grande defesa de Grohe na bola de Pratto e empate no rebote.

Dificuldade do São Paulo em se associar. Repare com o portador da bola tem dificuldade em encontrar um companheiro. Ninguém aparece. Não tem como jogar. (Reprodução: Premiere)

O empate ascendeu o time de Dorival, que respondeu correndo, lutando, se doando. Com Gilberto na vaga de Bruno e Marcinho na lateral direita, até ensaiou uma pressão aérea. Mas continuou tentando trocar passes e abrir a defesa. Terminou o jogo com apenas 16 cruzamentos, 13 erros. 54% de posse que resultou em apenas seis finalizações, duas certas, como dito acima, no lance do gol. Produção ofensiva que também preocupa e está inserida no contexto de mudança explicado.

O Grêmio poderia ter vencido o jogo. Acertou cinco finalizações em dez, cresceu na reta final com Everton e Fernandinho abertos nas vagas de Pedro Rocha e Arthur, trazendo Ramiro para a trinca de meio. O time ficou mais veloz e menos preciso, mesmo contando com espaços de um São Paulo que avançava de forma menos lúcida em busca da virada, não acertou o pé. Do outro lado, não houve chance para tal.

Dorival segue em busca de uma identidade e de um padrão de jogo que faça o São Paulo se recuperar. E já há um ensaio interessante nesse sentido. Algo tão importante quanto à vontade que time teve contra o organizado, e superior em alguns momentos, Grêmio. Luta compensadora. Ótimo jogo. Um bom ponto para cada lado.

Dados estatísticos: Footstats.net

Panorama do segundo tempo no Morumbi. São Paulo em busca da pressão, Grêmio querendo o contra-ataque, com espaço. (Reprodução: Premiere)
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Raí Monteiro

Jornalista, editor e doente por futebol. Sempre aberto a um bom debate e um copo de cerveja.

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