Quando o objetivo vira obsessão e a garra sobrepõem a organização, a queda é questão de tempo

Não faltou garra, vontade ou determinação. Desde o primeiro minuto, o Palmeiras, que buscava a virada sobre o Barcelona, foi intenso e propositivo, correndo e batalhando. O pecado foi pensar com as pernas e não com a cabeça. Trocar organização por luta e entrega.

No 4-2-3-1 de início, Dudu centralizado na vaga de Guerra era a novidade. Uma alternativa que nunca deu certo, nem nos tempos do título brasileiro em 2016. Porque o camisa sete tem características bem distintas ao que um jogador nesta posição e função precisa. Mais veloz e vertical, acelerou o jogo ao lado de Bruno Henrique e os pontas Roger Guedes e Keno, buscando Deyverson na referência. Mas nunca tentou alternar o ritmo, com passes em busca de uma melhor oportunidade. Parar a bola, pensar o jogo. Porque, mais uma vez, não é sua característica.

Sobrou intensidade, que fez o alviverde se afobar em busca do gol que traria tranquilidade e um ambiente mais favorável. A ansiedade em definir logo o lance fazia queimava a posse que beirou os 55% no primeiro tempo, mas só permitiu 98 passes e nenhuma finalização certa nas quatro que tentou.

Organizado, o Barcelona tentava repartir a bola e o protagonismo. Num 4-4-2 bem compacto, tirou os espaços e quando o Palmeiras cansou da “blitz” inicial, encontrou campo para jogar nos longos encaixes de marcação individual do técnico Cuca. Mas também não conseguiu ser efetivo, nem levar perigo ao gol de Jailson. Fase morna, momentos de um jogo picado por faltas, que pelo contexto e o que acontecia em campo, nem parecia uma decisão. Sempre bom para quem tem a vantagem.

A volta de Moisés na vaga do pouco eficiente Roger Guedes deu ao Palmeiras uma esperança e perspectiva de criatividade, lacuna do primeiro tempo. Concretizada quando o 10 pensou com a cabeça e agiu com os pés. Lançou e chegou para concluir no passe de Dudu, logo aos sete da etapa final. Gol que devolvia a confiança ao time de Cuca e deixava o jogo mais ao sua feição.

Mas na pratica, não houve domínio, nem pressão na sequência. Sem Mina, principal arma aérea, os cruzamentos não deram o tom e a zaga mais lenta sofreu com as investidas dos equatorianos. Trocação franca, aberta e que permitiu traves balançando dos dois lados e chances incríveis sendo desperdiçadas. A entrada de Guerra na vaga do lesionado Dudu tirou velocidade do jogo do Palmeiras. O fim que se aproximava, gerava o medo de se lançar, acelerar tentando pressionar e faltar perna para voltar. Recíproco no time de Guilhermo Almada.

As finalizações alviverdes subiram de quatro para 12, com dois acertos. Os cruzamentos ficaram na casa dos 25, com apenas três acertos. Número impactante de erros, mas que passou longe dos 50 chuveirinhos contra o Corinthians, embora o time não tenha necessariamente evoluído. Terminou o jogo com 20 a 17 em desarmes. Importante ter a bola, mas desnecessário lançar 46 vezes, errando 33.

Na marca da cal, preparo físico, mental e treino de cobranças. Nada de loteria ou roleta russa. A igualdade caminhou até o erro de Egidio. Poderia ser qualquer um dos 22 em campo.

A queda do Palmeiras e quase impossibilidade de título em 2017, com tanto investimento, começa no mal planejamento. Passa pelas lesões, muitas vezes incontroláveis. E chega ao campo. Objetivo não se pode transformar em obrigação ou doentia obsessão. Tão menos a garra, voluntariedade e coisas subjetivas podem se sobrepor ao trabalho coletivo, a organização que potencializa o talento individual. Os comandados de Cuca sentiram falta disso, de ser um time! Roteiro de uma derrota que se tornou questão de tempo… e chegou!

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Raí Monteiro

Jornalista, editor e doente por futebol. Sempre aberto a um bom debate e um copo de cerveja.

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