Cruzeiro campeão da Copa do Brasil: longevidade e identidade

Mano Menezes assumiu o Cruzeiro em setembro de 2015, depois de um tempo estudos após o período treinando Seleção Brasileira e, posteriormente, o Flamengo. Trabalhos bem contestados. No momento difícil do time no Brasileirão, ajeitou a defesa, sua grande característica, e a base da organização potencializou o time que tinha bons talentos. Da luta para não cair, guiou a equipe ao oitavo lugar. Quase chegou a Libertadores. Em janeiro o comandante foi para o Shandong Luneng e deixou o Cruzeiro nas mãos do auxiliar Deivid. O ex-atacante não teve sucesso, nem a paciência da diretoria, assim como seu sucessor, o português Paulo Bento. Mano voltou para salvar a raposa de uma situação difícil outra vez. Então com menos sucesso e mais oscilações, algo até natural para quem pega um trabalho no meio. Terminou o Brasileirão em 13º.

Só que diferente da primeira passagem, Mano ficou para a temporada seguinte, planejada desde seu início, estabelecendo um modelo de jogo e criando uma identidade. Importante demais em um país onde o calendário é apertado e o tempo para os ajustes é mínimo.

Então Mano pôde ser essencialmente Mano. Organizando o time para jogar de forma reativa, com linhas compactas e velocidade na retomada como características mais marcantes. Mais pragmático do que vistoso. Bom ou ruim, vistoso ou não, um modelo que ele acreditava ser o mais adequado para render o máximo. Estabeleceu a equipe com Rafael Sobis na referência, e Thiago Neves por dentro do 4-2-3-1, que ganhou mobilidade nas ações ofensivas, marca da conquista. Dinâmica mantida com Robinho e Alisson abertos, um armador e outro veloz. Além do bom apoio de Diogo Barbosa. Ganhou solidez no centro com Henrique e Hudson, mas também boa saída de bola, importante para quem joga em transição, reagindo a posse do adversário.

Movimentação ofensiva do Cruzeiro, atacando espaços, fundamental para criar chances na defesa pouco compacta e lenta do Flamengo

Foi assim nos dois jogos contra São Paulo, Palmeiras e Grêmio, times com uma ideia de jogo pautada na posse de bola. Também na grande final contra o Flamengo. O que encaixou e favoreceu o jogo celeste, sempre controlando seu adversário a partir da marcação.

Em 180 minutos de decisão, mesmo com alta posse e volume de jogo, se viu um Flamengo com muita dificuldade em jogar. Arão e Diego muito distantes, Everton e Berrío isolados nas pontas, Lucas Paquetá no primeiro jogo e Guerrero no segundo bem marcados. Poucas possibilidades de triangulação que fizesse o time avançar e atacar com mais chances de levar perigo ao gol de Fábio. Não à toa, no jogo da volta, a melhor defesa do arqueiro foi já nos minutos finais, em um contra-ataque puxado por Guerrero, sozinho.

Outra vez o Cruzeiro controlou os espaços a partir da marcação. Linhas próximas, com pressão no setor da bola, fechando as linhas de passe, um tipo de jogo que exige muito física e mentalmente.  Um desmanche é fatal. O que não permitiu nada ao Flamengo e deixou o jogo amarrado, para muitos chato, ruim e de baixa qualidade técnica. Questões estratégicas. Até porque, finais quase nunca são abertas.

Cruzeiro fechando marcando em duas linhas, sem pressão alta, mas com as linhas de passe fechadas.

Ao fim, nos pênaltis, que não são loteria ou sorte, e sim cada vez mais o preparo físico, mental e o treinamento de cobranças e defesas, vitória do mais competente dentro de seu modelo. Coroando um trabalho de longevidade e identidade, duas coisas fundamentais e cada vez menos usuais no futebol brasileiro. E que bom que seja assim!

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Raí Monteiro

Jornalista, editor e doente por futebol. Sempre aberto a um bom debate e um copo de cerveja.

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