Adaptação + pressão, a equação que complica a vida da Argentina nas eliminatórias

Os conceitos e ideias de jogo de Jorge Sampaoli não são de fácil entendimento e implementação. Se em um clube como o Sevilla, com pré-temporada e mais tempo para treinar, a ruptura para um estilo de pressão total, alta intensidade e jogo posicional já foi dura… Na seleção argentina, com pouco tempo e pressão contra um vexame histórico, o trabalho têm sido ainda mais complicado.

Sampaoli chegou há quatro rodadas do fim das eliminatórias, com não mais que três dias antes dos jogos para trabalhar. O que talvez não dê dez treinamentos ao fim das eliminatórias. Menos que uma pré-temporada no defasado calendário brasileiro. Dificulta assimilação, retarda o adaptação do time.

Na tensa Bombonera contra o organizado Peru de Ricardo Gareca, o comandante argentino apostou em outra formatação: linha de quatro atrás, com Di María aberto pela direita no 4-2-3-1 que ainda tinha Messi centralizado e o artilheiro do Boca, Benedetto no comando ofensivo.

A dramática situação da tabela não permitiu aos hermanos menos do que uma pressão quase que incessante desde o início. O time reagiu, teve bons momentos, alguma lucidez… Mas o modelo de jogo, ainda em adaptação, tem alguns erros de execução – algo bem comum. Não foram poucas as vezes em que Acuña e Mercado, laterais, atacaram por dentro, junto aos pontas, deixando o time sem amplitude – que é abrir o campo para esgarçar as linhas do adversário e permitir um desafogo, um cruzamento. Muita gente concentrada por dentro dificultou a troca de passes e as infiltrações.

Mesmo assim, a Argentina tinha Messi. Recuando, avançando, armando, criando… O camisa dez fez a equipe jogar como se esperava, serviu Benedetto, Alejandro Goméz e Rigoni, todos cara a cara com o goleiro Galesse. O arqueiro peruano fez grandes defesas, mas em muitos lances os argentinos também facilitaram o serviço.

Dinâmica de jogo em Buenos Aires: Biglia fazendo saída de três e o ataque posicionado. Peru compacto.

Os peruanos tiveram duas grandes chances de tornar a situação da Argentina ainda mais difícil. Primeiro com Farfán no cruzamento de Trauco, de partida bem mais segura do que as oscilantes atuações no Flamengo. Depois com Guerrero, em cobrança de falta. O camisa nove foi importante demais na retenção da posse para o time avançar, jogando quase que o tempo todo de costas para a defesa comandada por Otamendi e Mascherano.

A Argentina teve volume e poderia sim ter vencido o jogo. Com os 65% de posse, produziu 17 finalizações, sete na meta do time treinado por Gareca. É bem verdade também que Sampaoli pecou nas mudanças e escolhas, Gago como maior exemplo no segundo tempo – sem contar com o imponderável da lesão. Dybala e Icardi terminaram no banco, sem chance de ajudar, ao menos por ora.

As chances seguem grandes. Na última rodada, contra o Equador em Quito, basta uma vitória. O time de Sampaoli será beneficiado pelo confronto entre Peru e Colômbia, o mata mata da rodada. Além da improvável vitória do Chile em São Paulo contra o Brasil.

O que segue pesando é a relação adaptação e pressão, coisas que não podem caminhar juntas, inimigas número um dos grandes técnicos pelo mundo.

Dados estatísticos: footstats.net

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Raí Monteiro

Jornalista, editor e doente por futebol. Sempre aberto a um bom debate e um copo de cerveja.

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