O “peixe doido” de Levir: mais um time aleatório e desorganizado no Brasileirão 2017

Organização e desempenho são palavras fundamentais no futebol atual. Um time organizado corre menos riscos, porque está bem postado, e assim está mais próximo de seu melhor desempenho – que é jogar bem, sempre dentro de seu modelo – com isso mais perto da vitória. É óbvio que não há uma conta certa, uma fórmula. Futebol também vive do imponderável, o que torna esse esporte tão emocionante e apaixonante. Imprevisível. Mas a razão está presente no jogo, deve ser respeitada e na grande maioria das vezes, é ela quem vence os campeonatos.

O Corinthians é exemplo disso, tanto em 2012, como em 2015, quanto agora. Com um time mais limitado que os grandes do Brasil, “recorreu” a organização e ao máximo desempenho. Teve 82% de aproveitamento no primeiro turno do Brasileirão, o maior da história! Sem sorte ou coisas subjetivas que muitos técnicos adoram, jogando um bom futebol, potencializado pelo trabalho bem feito. “Eu digo pra eles, quanto melhor vocês jogarem, mais perto estão de vencer”, é frase permanente nas coletivas do técnico Tite.

Ainda em São Paulo, encontramos dois exemplos distintos: o milionário Palmeiras não tinha organização e nem conseguia desempenhar com Cuca, se apoiava nas individualidades e nas oscilações para vencer, o que para muitos com um bom elenco já basta – Valentim já busca um caminho oposto. O São Paulo de Dorival luta para sair da parte baixa apostando em organização e bons desempenhos em campo, como você leu aqui. Naturalmente, o time vai oscilar, porque está se formando dentro da competição. Novo técnico, novas ideias, peças novas, pressão por resultado…

Existem mais exemplos pelo Brasil. Cruzeiro e Botafogo, times que fazem um jogo mais reativo, de contra-ataque, e essencialmente organização. Dentro de suas perspectivas, tem obtido êxito. Mas também temos, e são poucos, os que gostam da posse, como Grêmio e Flamengo. Os gaúchos, que em um momento tiveram o melhor futebol do país, vem sofrendo com as baixas no elenco, as oscilações naturais de uma temporada longa e as atenções voltadas para Libertadores. Os cariocas na transição Zé-Rueda, que não é, nem será, da noite para o dia. O provável é que se forme um time apenas para o próximo ano.

E tem o Santos de Levir Culpi. Uma equipe que em pouco mais de cinco meses foi da boa organização e futebol com Dorival, para o modo aleatório e desorganizado. Marca dos trabalhos do técnico em Fluminense e Atlético-MG, mais recentemente. O “peixe doido”, que não teme a disputa de peito aberto contra quem for, também não se preocupa em sincronizar os setores e marcar de forma mais compacta, tão menos avançar com apoios para permitir que a bola role melhor, com mais opções. Fica no chutão, na ligação direita, na bola alta. Pouco pelo elenco, raso em ideias de futebol, inaceitável. Contra o organizado Vitória de Mancini, dois gols de bola alta não foram coincidência. O Santos não teve repertório para criar nada e ainda sofreu com controle baiano, baseado na movimentação e na troca de passes. Poderia muito bem ter perdido o jogo. Seria o mais justo.

Zeca, com a bola, não tem uma opção para triangular. Resta recomeçar ou lançar. Vitória bem postado, com superioridade numérica no setor da bola.

Muitos podem estar se perguntando: “mas se o Santos joga um futebol tão ruim assim, como está em terceiro, nove pontos atrás do líder e empatado com o Grêmio, de desempenho superior?”. Cabe outra reflexão, sobre o nível do futebol jogado no Brasil. Cada vez mais baixo, com partidas modorrentas, times mal estruturados e a cultura do jogar para vencer, sem se preocupar com o rendimento, que pode encurtar o caminho até as vitórias. A filosofia dos três pontos atrapalha o desenvolvimento do jogo, que fica cada vez mais em segundo plano.

Ter a segunda melhor defesa do campeonato, não significa que o Santos tenha um sistema sólido. Com os encaixes de marcação individual, já tão criticados com Cuca no Palmeiras, a última linha se quebra a todo momento (como na imagem abaixo), permitindo infiltrações no meio da área e muitas jogadas de um contra um. Não à toa, Vanderlei aparece tanto. No Pacaembu contra o Vitória, foram 21 finalizações dos visitantes, sete na meta do goleiro do alvinegro. Um número muito expressivo.

Repare no movimento corporal de Braz e Verissímo. Enquanto um sai para o bote, outra já pensa na cobertura. Quebra a linha e facilita o trabalho do ataque.

O meio campo inexiste desde a saída de Thiago Maia e as seguidas lesões de Renato. Alison não agrega em jogo e o bom garoto Matheus Jesus está em adaptação. Bruno Henrique trouxe um respiro e decidiu muitos, mais muitos jogos na base da individualidade. Como dito acima, um time mal estruturado sempre vai se apoiar em seus craques. Lucas Lima em alguns momento, Ricardo Oliveira e Copete com alguns gols também contribuíram nessa linha.

Por isso não há confiança em uma caça ao líder Corinthians. O Santos não dá indícios de que pode brigar pelo troféu nacional que não vem desde 2004 – época em que o futebol era mais talento e menos coletivo. O peixe doido de Levir é uma triste ilusão para seu torcedor. Mais uma equipe desorganizada, aleatória, que joga pela cultura dos três pontos no Brasil. E não vai a lugar algum em 2017.

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Raí Monteiro

Jornalista, editor e doente por futebol. Sempre aberto a um bom debate e um copo de cerveja.

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