Na noite em que precisava vencer, Mourinho jogou para não perder… justo contra o City de Guardiola

Sempre que United e City se encontram, a rigor desde que Guardiola e Mourinho chegaram, se espera um tipo de jogo: a proposta total dos azuis e a defesa intensa dos vermelhos. Natural pelo modelo de jogo de cada treinador e os duelos travados pelo continente nos últimos anos. Um redefiniu a ideia de jogo com posse, o outro refez o conceito de compactação e intensidade defensiva. Ainda assim, sempre fica a expectativa pelo que Mou pode fazer de diferente, uma vez que, em tese, tem um modelo com mais possibilidade de variação do que Pep, da pressão e da posse continua.

Porém a única surpresa que ficou do dérbi em Old Trafford foi a negativa em relação ao Manchester United. Porque o português até alinhou um time que parecia promissor com a trinca Rashford, Lingaard e Martial por trás de Lukaku, mas que pecou pelo excesso de cautela, num plano defensivo de linhas próximas, compactas e muita concentração para marcar o City, até com alguns encaixes curtos no setor por onde a bola circulava.

Martial e Rashford perseguindo Sané e Sterlling pelas lados até o fim do campo, Lingaard ajudando Lukaku no combate a saída de bola feita por Fernandinho entre os zagueiros e os laterais mais posicionados por dentro. Tudo com muita intensidade e um nível alto de concentração. Até então, tudo bem! O problema foi a falta de uma proposta e um repertório para quando de posse de bola. Chutões em excesso, poucos toques e nenhuma questão de ter a bola, objeto fundamental para se jogar. Talvez por isso Guardiola a queira tanto.

A impressão que ficou foi que o plano era apenas negar espaços ao City. E o time de Pep manteve o volume e a posse, até certo ponto confortável. Porque precisava brigar pouco para ter ou retomar a bola. Na tentativa de mexer com as linhas do United, muitas vezes se viu Gabriel Jesus revezando com Sterlling, também De Bruyne e Silva puxando a marcação de Matic e Ander Herrera para criar espaços entre as linhas, com primeiro passe sempre saindo de Fernandinho.

City saindo com Fernandinho entre os zagueiros e os homens de meio tentando atrair para abrir espaços.

Movimentação que ajudou e muito os citizens na criação das jogadas. Tabelas e deslocamentos que foram oferecendo a cada lance, melhores condições. Mas o volume demorou muito para se traduzir em vantagem e só veio depois de uma cobrança de escanteio, na segunda bola. O United despertou quando se viu obrigado a jogar. Avançou um pouco suas linhas e tentou pressionar mais a bola. No erro de Delph após a bola lançada, Rashford decretou um empate que pouco traduziu o que foi o “ataque x defesa” da primeira etapa.

United compacto e City transitando com apoios ao portador da bola e muita movimentação para mexer com as linhas adversárias.

Com Gundogan na vaga de Kompany e Fernandinho na dupla de zaga, Guardiola tentou qualificar o primeiro passe e empurrar Silva e De Bruyne para dentro do terço final do campo. Jogando entre as linhas, mais as costas de Matic e Herrera. O volume do City aumentou e resultou no gol de Otamendi, outra vez na bola alta. Antes que Mourinho pensasse algo ou o desenho mudasse de forma natural como acontece na relação “faço gol e relaxo, tomo gol e ataco”, Mangala ganhou a vaga de Jesus, devolveu Fernandinho para o meio e tornou David Silva “nove”.

O City aumentou sua produção entrelinhas, no mix de movimentação e adversário se desorganizando mais em busca do empate. Com a posse e a qualidade coletiva para fazer ela girar, a equipe de Guardiola controlou o jogo por um bom tempo no Old Trafford. Porque o United não tinha fluência na retomada. Pontas de velocidade, referência brigando pelos lançamentos, mas ninguém pensasse o jogo. Entrou Ibrahimovic para provar a área, depois Mata para construir. No primeiro lance, o passe que clareou tudo e terminou na dupla defesa de Ederson. Mostrou que o United poderia mais…

Mecânica do City: pontas alargam, laterais se oferecem por dentro e mais ajudam na saída com Fernandinho.

Mas Mourinho escolheu jogar para não perder. A jornada ruim arrancou com excessiva cautela, passando pela falta de ideias ofensivas, até os minutos finais aleatórios. Logo contra este City de Guardiola. Cada vez mais intenso, móvel e agressivo. Cada vez mais absoluto na briga pela Premier League.

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Raí Monteiro

Jornalista, editor e doente por futebol. Sempre aberto a um bom debate e um copo de cerveja.

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